Peleando contra o Poder

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Tosca e rude

De quando em vez,
se despilcham
da minha alma missioneira,
tosca e rude,
versos desgarrados
de algum rincão,
perdido na memória.

São os atavismos da terra,
a força telúrica das coxilhas,
a desprender a presilha dos sentimentos
frente ao minuano ou ao fogo, no galpão.

Saudade, memória ou esquecimento,
vã ilusão de realidade?
O verso se perdeu;
a vida, não.

Newton Fabrício

La Magna Carta del Hombre.

Li o poema “A poesia é uma arma carregada de futuro” e parei pra pensar:

– Onde está a essência do ser humano? Onde se encontra a essência do homem?

Cada um deve ter a sua resposta.
A minha é esta:

No soy poeta.
No puedo escribir poema así,
lleno de fuego y sensibilidad
– sin embargo, quisiera.

Entonces, escribo algo muy menor.
Pero, en la vida, lo que se queda,
Son actos.

El hombre no es los cargos
que ocupa.
El hombre es, solo,
Los actos de su vida.

Acá está la esencia del hombre:
la teimosa, continua y obstinada
marca de su vida – los actos.

Acá está su corazón,
las pegadas de su alma,
La marca de su vida – los actos.

En realidad, en la vida
hay una sola verdad:
los actos son
La Magna Carta del Hombre.

Newton Fabrício

Onde está a essência do ser humano? Onde se encontra a essência do homem?

La Poesía Es un Arma Cargada de Futuro

Cuando ya nada se espera personalmente exaltante,
mas se palpita y se sigue más acá de la conciencia,
fieramente existiendo, ciegamente afirmado,
como un pulso que golpea las tinieblas,

cuando se miran de frente
los vertiginosos ojos claros de la muerte,
se dicen las verdades:
las bárbaras, terribles, amorosas crueldades.

Se dicen los poemas
que ensanchan los pulmones de cuantos, asfixiados,
piden ser, piden ritmo,
piden ley para aquello que sienten excesivo.

Con la velocidad del instinto,
con el rayo del prodigio,
como mágica evidencia, lo real se nos convierte
en lo idéntico a sí mismo.

Poesía para el pobre, poesía necesaria
como el pan de cada día,
como el aire que exigimos trece veces por minuto,
para ser y en tanto somos dar un sí que glorifica.

Porque vivimos a golpes, porque apenas si nos dejan
decir que somos quien somos,
nuestros cantares no pueden ser sin pecado un adorno.
Estamos tocando el fondo.

Maldigo la poesía concebida como un lujo
cultural por los neutrales
que, lavándose las manos, se desentienden y evaden.
Maldigo la poesía de quien no toma partido hasta mancharse.

Hago mías las faltas. Siento en mí a cuantos sufren
y canto respirando.
Canto, y canto, y cantando más allá de mis penas
personales, me ensancho.

Quisiera daros vida, provocar nuevos actos,
y calculo por eso con técnica qué puedo.
Me siento un ingeniero del verso y un obrero
que trabaja con otros a España en sus aceros.

Tal es mi poesía: poesía-herramienta
a la vez que latido de lo unánime y ciego.
Tal es, arma cargada de futuro expansivo
con que te apunto al pecho.

No es una poesía gota a gota pensada.
No es un bello producto. No es un fruto perfecto.
Es algo como el aire que todos respiramos
es el canto que espacia cuanto dentro llevamos.

Son palabras que todos repetimos sintiendo
como nuestras, y vuelan. Son más que lo mentado.
Son lo más necesario: lo que no tiene nombre.
Son gritos en el cielo, y en la tierra son actos.

(Gabriel Celaya)

A Poesia É uma Arma Carregada de Futuro

Quando já nada se espera de pessoalmente exaltante,
mas se palpita e se continua para cá da consciência,
ferozmente existindo, cegamente afirmando,
como um pulso que lateja nas trevas,

quando se olham de frente
os claros olhos vertiginosos da morte,
dizem-se as verdades:
as bárbaras, terríveis, amorosas crueldades.

Dizem-se os poemas
que dilatam os pulmões de quantos, asfixiados,
pedem ser, pedem ritmo,
pedem lei para o que sentem excessivo.

Com a velocidade do instinto,
com o raio do prodígio,
como mágica evidência, converte-se o real
no idêntico a si mesmo.

Poesia para o pobre, poesia necessária
como o pão de cada dia,
como o ar que exigimos treze vezes por minuto,
para ser e enquanto somos dizer um sim que glorifica.

Porque vivemos de vez em quando, porque mal nos deixam
dizer que somos quem somos,
nossos cantos não podem sem pecado ser um ornamento.
Estamos a tocar o fundo.

Maldigo a poesia concebida como um luxo
cultural pelos neutrais
que lavando as mãos, se desinteressam e evadem.
Maldigo a poesia de quem não toma partido até manchar-se.

Faço minhas as faltas. Sinto em mim quantos sofrem
e canto ao respirar.
Canto, canto, e a cantar para além de minhas mágoas
pessoais, fico maior.

Quisera dar-vos vida, provocar novos actos,
e calculo por isso com técnica, que venço.
Sinto-me um engenheiro do verso e um operário
que com outros trabalha Espanha nos seus aços.

Assim é a minha poesia: poesia-ferramenta
e ao mesmo tempo pulsação do unânime e cego.
Assim é, arma carregada de futuro expansivo
com que aponto ao peito.

Não é uma poesia gota a gota pensada.
Nem um belo produto. Nem um fruto perfeito.
É algo como o ar que todos respiramos
e é o canto que difunde o que dentro levamos.

São palavras que todos repetimos sentindo
como nossas, e voam. São mais que o que elas dizem.
São o mais necessário: o que possui um nome.
São gritos no céu, e, na terra, são actos.

(Gabriel Celaya).

O triste fim de João Sem Terra.

15 de junho de 1215. Os barões ingleses obrigam João Sem Terra a assinar um documento que entraria para a História com o nome de Magna Carta. O rei, porém, não cumpre a sua palavra: assim que os barões se retiram, ele deixa claro que não pretendia cumprir o que assinara. A guerra civil, como era óbvio, estava prestes a eclodir. João Sem Terra pede a ajuda do Reino da França para manter a coroa e impor a sua vontade – e, naturalmente, aumentar mais uma vez os impostos. João Sem Terra não perdeu, porém, apenas a coroa: perdeu também a vida, pouco mais de um ano depois de assinar a Magna Carta.

Nem João, nem seu irmão Ricardo nasceram para serem reis. Dentre os homens (na Inglaterra da época, as mulheres não podiam ocupar o trono), João era o quinto filho do Rei Henrique II e de Leonor de Aquitânia; Ricardo, o terceiro. Logo, nenhum dos dois poderia sequer sonhar que um dia herdariam a coroa. Mas, a vida, com os seus destinos incertos, surpreendeu a ambos – morreram cedo os irmãos mais velhos, Guilherme e Henrique (e, mais adiante, também Geoffrey, o quarto filho homem do casal), e o cetro e a coroa do Reino da Inglaterra caíram nas mãos de Ricardo – que, na realidade, praticamente sempre morou na França, no ducado da Aquitânia, então de domínio inglês.

O que fez Ricardo, ao tornar-se Rei? Endividou a Inglaterra e partiu para a Terra Santa, para recuperar Jerusalém, naquela que se tornou conhecida como a Terceira Cruzada. Ricardo não recuperou Jerusalém, mas conquistou o apelido de Coração de Leão. No retorno, após restar preso mais de ano, os ingleses pagaram o seu resgate, mediante uma quantia vultosa, ao Rei Guilherme VI, da Alemanha, com o que finalmente chegou à Inglaterra. Em poucas semanas, reconquistou o trono inglês, usurpado por João Sem Terra, partindo novamente para a França.

A vida dos dois irmãos foi muito diversa, assim como a morte. Ricardo Coração de Leão teve a morte digna de um rei do auge dos tempos da cavalaria: um flechaço no lado esquerdo do peito, em plena batalha, montado no seu cavalo e liderando o ataque ao Castelo de Châlus. O pobre João Sem Terra, por sua vez, teve um fim miserável. Durante a campanha empreendida com o seu exército, tentando recuperar a coroa e o cetro que perdera, teve um ataque de disenteria. Disparou, então, para o mato, onde morreu em prosaica situação.

Ricardo Coração de Leão é até hoje cantado em prosa e verso na Inglaterra, onde praticamente nunca viveu – e sequer sabia falar inglês. Por sua vez, João Sem Terra entrou para a História como um pobre diabo que queria ser rei – mas que nada fez de bom, útil ou digno de respeito ou consideração.

Oitocentos anos depois, me ponho a pensar: se não fossem os abusos e a ganância por impostos de João Sem Terra e a Magna Carta não teria surgido, em 1215. Não foi, então, sem nenhuma utilidade a vida do pobre João Sem Terra. Afinal, ainda que por vias transversas, foi ele que propiciou as condições para que os barões ingleses se revoltassem e exigissem a assinatura da Magna Carta, limitando o poder do rei.

Dessa reflexão, só me resta uma perplexidade: nunca, como agora, o Direito Constitucional esteve em tanta evidência. No entanto, na data marcante dos 800 anos do nascimento e assinatura da Magna Carta, documento primordial na História do Constitucionalismo, não há um único simpósio ou ciclo de estudos para celebrar esse fato histórico.

Newton Fabrício

A vida.

Quem é esse homem,
que surge das sombras
E me chama
de Pai?

A vida passou
voraz e veloz.
Resta a vertigem
das velhas fotografias
dos rostos sem memória.
E da memória sem rostos.

É o que resta
da vida que passou
veloz e voraz.
Esquecida de mim.

Só resta
esse homem,
triste e barbudo,
(precisando urgente
de um barbeiro),
que me chama de Pai.

E que reconheço
na fotografia do
meu neto.
É o que resta de mim.

Newton Fabrício

Não importa a distância da estrada.

O ser humano sempre possuiu sonhos de melhorar a sua vida e de sua família e, alguns, de alterar a situação de sua sociedade. A luta pela busca do que é importante para si é inerente ao homem e se constitui, muitas vezes, num dos valores mais nobres e belos existentes na essência de cada um.
Sonhos são necessários para termos objetivos na vida; para lutarmos com todas as nossas forças com a ideia de alcançar o que desejamos. Sem metas de vida, nos tornamos seres alienados, infelizes e que apenas contarão o tempo restante na Terra sem realizar nada para torná-lo especial. É preciso ter metas para podermos alcançá-las e, consequentemente, encontrar a felicidade.
Objetivos podem ser exemplificados pela vontade de se tornar um grande profissional na área escolhida, pelo desejo de constituir uma família e pelo sonho de viajar pelo mundo, conhecendo diferentes povos e aprendendo com sua cultura. O sonho mais nobre, contudo, e que provavelmente traz a maior satisfação possível, é a luta pela esperança de ajudar sua sociedade ou, quem sabe, mudar o mundo. Mahatma Gandhi, Nelson Mandela, Martin Luther King Jr. e Ernesto Che Guevara são exemplos de homens que corajosamente desafiaram a opressão que lhes era imposta e ajudaram, cada um à sua maneira, a construir um mundo diferente: um lugar mais justo, igualitário, livre da tirania e feliz.
O meio em que vivemos nunca é propício ao desenvolvimento de nossos sonhos. Sempre haverá algo ou alguém que tentará impedir a evolução da luta pessoal pelos objetivos de cada um. Contudo, devemos ignorá-los e seguir na busca pela felicidade. Apenas assim cumpriremos nosso dever como cidadãos e como seres humanos, e faremos nossa vida merecer ter sido vivida.

RAFAEL DIEHL FABRÍCIO
Vestibulando

O vôo da garça do Afif.

Ao vir para o Foro, olhei para o Dilúvio. Afinal, é melhor olhar para um riacho poluído do que para as pessoas estressadas no trânsito. Valeu a pena. Planando acima do pobre Dilúvio, feio e sujo, de um lado para o outro, batia as asas, branca e tranquila, a garça do Afif; nada importava que a linha d’água estivesse no nível mais baixo que já vi; não dizia respeito à garça que o riacho estivesse transformado em um mero filete. Nada disso tocava a garça, que planava, solitária e suave, conforme a brisa, para cá e para allá.
O trânsito, enfim, andou.
Poucos metros adiante, me dei conta: o último vôo da garça, sempre tranquilo e em paz, agora foi mais baixo, mais perto do riacho.
E contra a correnteza.
Olhei pra trás.
Não a vi mais.
Talvez fosse apenas um ponto branco no céu azul, a voar rumo à solidão.
Pensei um pouco.
Então, me dei conta: nem tudo está perdido se até a garça começa a voar contra a correnteza.

Fabrício

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