O Magistrado, a Psiquiatra e o guri do crack

Era impossível: tinha que se tomar uma medida mais drástica pra solucionar o problema.
O guri, com apenas 10 anos, colocava em risco os demais.
O crack tinha tomado conta do piá.
A solução, informaram ao juiz, era enviá-lo para uma clínica em Novo Hamburgo, que estaria conseguindo tratar e recuperar casos semelhantes.

O juiz não gostou da idéia: o guri era de São Borja e seria tratado em Novo Hamburgo, longe da família?
Não gostou da idéia, mas não havia outra melhor.
A contragosto, aceitou a sugestão.
Mas… tinha um problema.
Sempre tem.
Ou o guri viajava sedado, ou amarrado.
Não tinha outro jeito.
Com o peito apertado, fez a escolha menos drástica.
Mas continuou com o peito apertado.

Ao chegar em Novo Hamburgo, outro problema.
A situação do piá era pior do que eles imaginavam.
Não queriam receber o guri.

Apesar disso, receberam, depois de muita conversa.
Mas… não adiantou nada.
O guri fugiu no primeiro dia.

O juiz ficou com o peito mais apertado ainda.
Decidiu viajar pra ajudar a encontrar o guri.

Quando já estava com o pé no estribo, chegou a notícia.
Tinham achado o piá – pedindo esmola pra comprar a passagem pra voltar pros pagos de São Borja.

O juiz, então, decidiu: vamos tratar esse guri aqui mesmo.
De São Borja, ele não sai de novo.
Em conversa com a única psiquiatra de São Borja ficou acertado que o tratamento seria ambulatorial.

Na primeira charla com a psiquiatra, ela pergunta pro guri:
– O que tu mais quer na tua vida?
– Um revólver.
– Um revólver??? Pra quê?
– Porque quando eu ser grande eu vou ser chefe de uma favela.

Duas semanas depois, ela liga pro juiz.
Explica que faltava a figura paterna na vida do piá.
E pergunta se ele aceitaria conversar com o guri, pra ver se ele criava algum vínculo com essa figura.
O juiz atendeu o telefone dois minutos antes de uma audiência começar.
Mas não teve dúvida.
Respondeu:
– Já estou indo.
E disse pros advogados e partes:
– Não me levem a mal. Vou ter que atrasar um pouco a audiência. ?? um caso sério e importante de um menor. ?? mais importante que esta audiência.
Todos concordaram – sabem que ele não atrasa audiência.

Algumas semanas depois, a psiquiatra liga pro juiz:
– Dr., o senhor não vai acreditar.
– O que houve, Dra.?
– O guri não quer mais revólver, nem ser chefe de favela.
– Bah… que surpresa. O que ele disse?
– Ele quer ser juiz, que nem o senhor.

Newton Fabrício
Obs: o juiz que virou amigo do guri e livrou ele do crack é o Maurício Ramires.
Um verdadeiro Magistrado – humano, dedicado, culto e idealista.
O meu respeito, Maurício.
Um baita abraço, Magistrado.

Obs 2: a psiquiatra que, com carinho e competência profissional, atendeu o guri é a Dra. Ivete Blanco.
Não a conheço.
Mas já a admiro.
O meu respeito, Dra. Ivete.
Um grande abraço.

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